A consciência evangélica, o Cristo fora do padrão e a voz de Deus fora da igreja.

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Estive conversando com uma amiga extremamente angustiada com o que ela classificou como um momento de mornidão na sua vida cristã. Fiquei pensando que, assim como ela, muitos outros devem viver o mesmo dilema. Ela se considerava doente espiritualmente, por não ter o que chamava de “consciência evangélica”, segundo ela, encontrada em outras pessoas, o que a deixava constantemente em conflito.

Tendo sido criada no contexto da igreja evangélica, foi levada por tudo e todos a sua volta a ter essa dita “consciência evangélica padrão”. De certa forma, sentia que isso havia sido impresso nela pela convivência com familiares evangélicos.

Em algum tempo, conheceu um pregador que conseguiu com suas prédicas, ampliar seu campo de visão, levando-a a um certo momento de crise por encontrar erros no comportamento da igreja atual, se comparada ao que se vivia e que está descrito nos evangelhos.

Sua percepção era de que a igreja atual virou uma religião e distanciou-se do evangelho de Cristo, mas em contra partida, via os novos convertidos tão felizes e com fé que não duvidava que pudessem mover montanhas.

Nesse conflito entre o saber e a ignorância, desejava, muitas vezes, ter sua ignorância de volta, pois julgava que, dessa forma, ouviria Deus falar novamente com antes falava.

Minha leitura desse momento na vida dessa pessoa é que a crise com o que se instaurou na instituição, é o começo da libertação.

Por vezes, o que se pode ter de melhor é exatamente não ter essa consciência evangélica. Infelizmente, em sua grande maioria, o que se diz de consciência evangélica é algo maligno, preconceituoso e institucionalizado.

Este conflito poderá levar a dois caminhos: o caminho da percepção de que algo não anda bem e deve mudar, ou o caminho do conformismo, de deixar como esta sem se incomodar muito com o que já está estabelecido. O primeiro, é o mais trabalhoso, pois exige quebra de paradigmas. O segundo é fácil, mas infelizmente é o mais seguido.

A tal consciência padrão não existe. Jesus não era padrão. Como rei, deveria ter nascido em um palácio, mas como ele fora do padrão, nasceu em meio aos animais. Como grande profeta deveria ter feito do templo o lugar do seu ministério, mas como ele era fora do padrão fez da periferia o lugar do seu ministério. Existem muitas outras coisas fora do padrão e foi por ser tão fora do padrão que ele foi o que ele nasceu para ser. Estar fora do padrão exige um preço a pagar. Ele pagou.

Os que estão a nossa volta, por vezes possuem uma consciência evangélica retrograda e institucionalizada, onde o que se está em evidência é o que deve ser proibido e não o viver a plenitude do evangelho. Estão preocupados com o que as pessoas vão pensar se virem você sendo você. Estão preocupadas com o “não pode isso, não pode aquilo”, e ditam regras que jamais encontraremos na bíblia.

Há algo muito ruim na religião, mas há algo pior ainda na religiosidade. Boa parte do pensamento evangélico atual está impregnado de conceitos que ferem, matam e estupram nossa consciência.

A igreja tenta ensinar que devemos nos parecer com o Cristo, mas para que isso aconteça, temos que deixar de querer ser parecido com aquilo que os que nos cercam dizem ser o que o Cristo diz.

Toda essa percepção crítica a repeito da situação das comunidades de fé e de alguns de seus componentes, sejam eles leigos ou clérigos, pode nos fazer pensar sobre os que são chamados de novos convertidos. Pode se perguntar se o fato deles serem ignorantes a repeito de algumas verdades não os fazem mais felizes, mas em grande maioria, eles fingem que acreditaram no que foi dito até que, frustrados, descobrem que a verdade é outra. Não há problema em se perder a ignorância. Fé e razão não são auto-excludentes.

O que de fato precisa ser feito é tentar ouvir Deus falar fora do ambiente da Igreja. Ele fala na historia, na cultura de povos, no dia a dia, na caminhada. O pior lugar para se ouvir Deus falar é no contexto hipócrita e institucionalizado de uma igreja. Até se ouve lá, mas com certeza, um Deus de verdade e da verdade não se sucumbe a uma instituição hipócrita, mesmo que esta chame a si mesma de igreja.

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