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set 13

A juventude cristã e o serviço cristão – Uma reflexão sobre que tipo de evangelho temos visto e vivido.

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Mateus 25 31-46

O texto de Mateus 25 31-46 trata de acontecimentos futuros e faz parte do que é conhecido com literatura apocalíptica.

É um texto com diversas interpretações e, por conta disso, gerador de algumas confusões. A intenção aqui, não é em hipótese alguma criar uma expectativa de que todas as nossas dúvidas a respeito do texto sejam elucidadas, pois de fato, estamos muito distantes da originalidade do texto para ousarmos definir desta forma.

Há, porém, algo que o texto nos aponta e que mesmo com toda distancia de sua escrita, podemos lidar com certa clareza. Há algo no texto que é muito claro: um julgamento que produzirá uma separação entre dois grupos de pessoas.

Gostaria de destacar algumas expressões encontradas neste texto, e que acredito estejam relacionadas com aqueles que já foram salvos por Jesus Cristo.

  1. Tive fome;
  2. tive sede;
  3. era estrangeiro;
  4. estava nu;
  5. adoeci;
  6. estive na prisão.

É importante perceber também, que esse texto não se destina a quem não tem conhecimento da salvação, mas é um texto que aponta para a ação eficaz de quem já é salvo. Isso é fácil de perceber, pois para as atitudes relacionadas a cada carência descrita nessas seis expressões, há uma recompensa que é ser chamado de “bendito do pai” e ainda “possuir por herança o reino que está preparado desde a fundação do mundo”. As obras aqui não apontam para a salvação dos jutos, mas para uma recompensa para esses justos por terem as praticado.

Não observar o texto dessa forma, é criar uma margem para a interpretação de que é possível existir salvação a partir das obras. As boas ações são então, a evidência externa do que já aconteceu no interior. São as declarações públicas de uma salvação que se processou no pessoal.

Mas como eu anunciei no princípio, quero discorrer sobre as expressões que considero impactantes nesse texto.

  1. Tive fome

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Fome é algo que só quem vivenciou sabe de fato o que é. Quando passa da hora de atendermos ao nosso relógio biológico costumamos dizer: “estou morrendo de fome” De fato, quando isso acontece, não estamos morrendo.

Entretanto, há no mundo milhões de pessoas que morrem de fome e não é de forma figurada. Segundo a FAO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, em 2015, 795 milhões pessoas passam fome no mundo. Embora nas estatísticas da FAO o Brasil já tenha saído do mapa da fome a realidade brasileira em relação a fome é bem diferente. Vale a pena lembrar que o gestor da FAO é um brasileiro, alinhado com o poder vigente e que em nenhum momento mostraria a realidade dos fatos, sendo ele mesmo o gestor de um órgão que tem por função erradicar a fome do planeta. Saia nas grandes metrópoles, após o fim de um dia, e veja quantas pessoas estão revirando as latas de lixo e comendo os restos alimentares de quem teve como comprar a comida. Ninguém come do lixo por prazer, mas porque tem fome.

No norte e nordeste do país, entre 40% e 46% da população enfrenta problemas com a fome. Segundo a última pesquisa do IBGE(2013), mais de 7 milhões de brasileiros estão em insegurança alimentar grave, um termo técnico para fome. O norte e o nordeste brasileiro vivem uma catástrofe de fome que não deixa nada a desejar aos países africanos, como uma agravante: a áfrica está convulsionada em guerras civis, disputas étnicas e religiosa e o Brasil não.

Aliado a esta situação de fome, temos algo que é muito grave também que é o desperdício de alimentos. Cerca de 40 mil toneladas de alimentos são desperdiçados, o que daria para alimentar, segundo o EMBRAPA cerca de 19 milhões de brasileiros.

Qual será a nossa resposta a este quadro caótico? Continuaremos creditando a má política nacional, aos políticos corruptos todo esse quadro? Essa talvez seja a forma mais fácil de nos livrarmos do problema. Mas, quando o Cristo se referiu aos seus discípulos, que viviam num mundo caótico, perverso, opressor, tanto quanto o nosso ele os chamou de sal da terra, luz do mundo. Ele não entendia que os discípulos comissionariam outras pessoas para fazerem a diferença, mas que eles próprios seriam a diferença na terra. A igreja não foi chamada para eleger políticos que farão a diferença, mas para ser a diferença. A reposta é óbvia para não enxergarmos. Tive fome e destes-me de comer.

  1. Tive sede

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Toda vez que bebemos uma água potável, não levamos em consideração milhões de pessoas que não sabem o que é isso. Em março de 2015 estimou-se que cerca de 740 milhões de pessoas passam sede no mundo. Mesmo dos que tem acesso a água, nem todos a tem na forma que temos nos grandes centros. Há regiões próximas aos grandes centros onde ainda se paga por carros pipas, para se ter água e nem é preciso falar do nosso nordeste onde a escassez de água aflige a população, impedindo-a de plantar, comer, manter o gado saudável. Ficamos chocados com os reservatórios chegando aos já conhecidos volumes mortos. Mas cabe uma reflexão sobre essa preocupação. Será que nossa preocupação é com a sede, ou com o fato de que sem água, não teremos eletricidade abundante para fazer funcionar nossos mimos tecnológicos?

Nossos “lava a jato”, nossas “vassouras de água” nossas “máquinas de lavar” estão desperdiçando a água que muita gente gostaria de ter. Assim como a fome, somente quem já passou por privação de água pode compreender o que é ter sede. Um organismo é considerado em processo de desidratação quando perde 400 ml de liquido. Precisamos fazer uma reflexão sobre isso também.  É um dever ético da igreja pensar melhor a questão da água e da ausência de água. De que forma podemos contribuir para que a fome e a sede sejam aplacadas de fato e não somente através de estatísticas da nossa realidade brasileira? Se não somos nós que vamos dar um ponto final no problema, cruzar os braços nos faz parte desse mesmo problema. É claro demais para não sabermos o que fazer.Tive sede, e destes-me de beber.

  1. Era estrangeiro.

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O Brasil é conhecido mundialmente por sua hospitalidade. Mas até que ponto isso é uma grande verdade? Temos cuidado de fato daqueles que são de culturas diferentes que a nossa? Temos cuidado bem daqueles que estão sendo inseridos em nossa realidade por diversos fatores alheios à sua própria vontade? Essas perguntas precisam ser respondias.

Na realidade, não o fazemos com tanta eficácia quanto parece para todo o restante do mundo. Nós sequer tratamos bem os estrangeiros da nossa própria localidade. Com um país de dimensões continentais, não é difícil ver como os estrangeiros de nós mesmos são mau tratados. Por vezes agimos muito parecidos com os Judeus que rejeitavam os Samaritanos. Se for do nordeste e tem um sotaque cantado, chamamos de Paraíba, negando-lhes sequer o direito da naturalidade paraibana. E quando assim o fazemos é por puro pré-conceito, nos achando melhor que eles. Uma manobra mal feita, e dizemos que é uma baihanagem. Se é negro, chamamos de preto e mais uma vez quando vemos algo que não é bem feito dizemos que é coisa de preto.

E não sejamos hipócritas, pois fazemos isso, nós que somos cristãos, a quem o texto sagrado adverte que Deus faz chover sobre justos e injustos. Nós somos classistas e achamos que os que são da nossa classe são melhores dos que os que não são. De novo repito, Deus nos chamou para sermos diferença neste mundo e não para sermos excludentes deste mundo. Era estrangeiro e me hospedastes-me.

  1. Estava nu

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A nudez nem sempre foi um problema para o ser humano. Antes do pecado, andávamos nu e disto não tínhamos a menor vergonha. Não nos envergonhávamos pois como não havíamos conhecido o pecado, nossos olhos não enxergavam como agora. Depois do pecado, porém, a nudez se tornou um problema. Estar nu é estar em condição de fragilidade.

Não ter o que vestir ou o que calçar é incomodo. Quando estamos nus estamos numa condição de revelar o que passamos boa parte da nossa vida escondendo. O pecado nos tirou da nudez, mas não para uma realidade agradável.

Nós estamos acostumado a nos vestir e para tanto procuramos manter nosso guarda roupa com o que podemos ter de melhor. Nele colocamos nossas roupas adequadas para o frio e o calor. Além das roupas, que nos acompanham no dia a dia, temos as roupas de cama. No tempo frio, nos aquecemos com nossos cobertores, edredons e tudo que a tecnologia contra o frio inventou para nos aquecer.

Entretanto, precisamos pensar naqueles que não tem a mesma oportunidade que nós. Quantas pessoas, no lugar de edredons, tem usado jornais como cobertores. No Brasil, cerca de 130 pessoas morrem de frio, enquanto nós estamos no aconchego de nossas casas. O mesmo Jesus que morreu por você, que dorme bem agasalhado durante o frio, morreu pelo mendigo que se veste de jornal, deita-se para dormir, e nem sempre acorda para ver a luz do sol no dia seguinte. Precisamos repensar nossa forma de ver os desvalidos da sociedade opressora e lembrar que nós estamos inseridos nessa sociedade. Se não fizermos nada contra, em outras palavras estaremos admitindo que somos tão opressores quanto essa sociedade. Estava nu e vestistes-me.

  1. Adoeci

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Nunca estamos preparados para lidar com a doença. Ela muda nosso cotidiano e interfere na nossa boa maneira de viver. Ter saúde é algo que almejamos o tempo todo. Quando estamos doentes e temos que enfrentar a rede pública de saúde, nos deparamos com situações que fogem a nossa compreensão. Hospitais lotados, pessoas atendas nos corredores, dor, desespero, medo da morte, são ingredientes para fragilizar ainda mais a pessoa que está doente. O que nós, como igreja podemos fazer?

Há pessoas nos hospitais que não tem familiares para visitá-las. Pior que isso, há pessoas que tem seus familiares, mas estes, nunca vão visitá-las. Dentro dos hospitais, elas convivem com indiferença de alguns profissionais de saúde que já se anestesiaram diante de um quadro tão caótico quanto é a saúde brasileira. O que nós, como discípulos de Jesus estamos fazendo para mudar esse quadro caótico.  Não podemos agir como médicos, mas podemos agir como canal de benção em lugares como esse. Podemos nos envolver com a capelania hospitalar e ajudar a essa pessoas que estão ali, muitas vezes dependendo somente de ouvir falar de Jesus para que aceitem a mensagem do evangelho. Muitos estão ali para crerem na salvação em Jesus, e partirem em paz desse mundo. Mas como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? Já parou para pensar nisso? Adoeci e visitastes-me.

  1. Estive na prisão

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A realidade das prisões no Brasil é terrível. A prisão de um infrator tem, ou pelo menos deveria ter um caráter correcional e de socialização. Mas essa é a realidade do papel, pois na prática é totalmente diferente.

A sociedade envia os delinquentes para as prisões para cumprirem penas que os transforma em pessoas piores do quando entraram. É um sistema criado para destruir e não para construir. Como igreja, temos falhado duplamente com os encarcerados. Primeiro, quando não fazemos a diferença no mundo, e deixamos que crianças e adolescentes sejam capturadas pelo tráfico de drogas para servirem de escudos de menor idade para os atos dos que já atingiram a maioridade penal. Me causa náuseas saber que boa parte da dita bancada evangélica no congresso nacional investiu pesadamente para a redução da maioridade penal, como se isso fosse de fato a solução para o problema social da criminalidade. Como se de fato, a criminalidade começasse e terminasse nas favelas. Esta é de fato, só uma das muitas artimanhas políticas para esconder de vez quem são os grandes criminosos dessa nação. Temos que ser igreja, diferença vital no mundo para impedir que os criminosos se tornem criminosos. E uma das armas que temos para isso é o ensino do evangelho.

Nosso segundo erro como igreja, é depois de não conseguir reverter o quadro, abandoná-los nas prisões. Estamos nos agrupando em multidões para fazer o que do que aprendemos do evangelho? Em 2014, foram contabilizadas cerca de 500 mil pessoas na marcha para Jesus no Rio de janeiro. Se dividíssemos este numero somente no complexo de Gericinó que conta com 27 unidades prisionais, teríamos em média 18 mil crentes para visitar cada unidade. Quantas pessoas precisam estar reunidas em nome de Jesus para que ele esteja presente? Estive na prisão e foste me ver.

 Conclusão

O texto de Efésios 2 8-10 fala da salvação pela graça. Normalmente nós cristãos sabemos de cor, mas o recitamos até o verso 9. Não enxergamos que o verso 10 completa o que vem antes e afirma que o mesmo que nos preparou para a salvação, nos preparou para a prática das boas obras.

Somos salvos pela graça. Nada do que podemos fazer pode mudar isso. Mas a nossa salvação nos impulsiona a servir. Como filhos de Deus, nosso papel é servir. Como discípulo de Jesus, nossa missão é servir. O texto de Paulo nos ensina que somos criados em Cristo Jesus para as boas obras. Não somos igreja por que fazemos boas obras, mas se somos igreja, a evidência natural disso é fazer boas obras. Não ouviremos um “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” porque fizemos boas obras, mas por que fomos salvos. E exatamente porque fomos salvos temos a missão de saciar a fome do faminto e a sede do sedento. Temos a missão de acolher bem ao estrangeiro, mesmo os que são da nossa própria terra. Temos que nos preocupar com os que não tem o que vestir. Temos que ser sensíveis à dor do que está doente e visitá-lo levando palavras de vida eterna. Temos que compreender que o encarcerado precisa da nossa visita para quem sabe ser livre da prisão, se não a da carne, já que está pagando por seu crime, mas a espiritual, pois para libertar dessa prisão, Jesus já deu o seu sangue, tanto por nós, quanto por eles.

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