A voz silenciosa da minha alma – Quando falar não é necessário

sol na floresta

O líder da caminhada foi logo avisando:

– Vamos correr, não temos tempo, há tanto o que ver que é preciso caminhar rápido.

Percebi logo que estava no lugar errado. Depois de acelerar a semana inteira, na correria do dia a dia, no transito em seus incríveis 20 km por hora, o que eu queria mesmo era parar e sentir preguiça.

O líder, cara tenso, do tipo que parece que nunca aproveitou nada do que levou seus liderados a apreciar, continuava vociferando: “vamos, vamos, vamos!”

O grupo foi ficando longe, longe, até que o perdi de vista.

Olhei para o lado, e vi um pássaro que resolveu pousar em um galho próximo. Como eu, ele parecia que não tinha a menor pressa de voar. Aproximei-me dele calmamente, mas acho que nem era preciso tanto cuidado, visto que cheguei tão perto, pronto a tocá-lo e ele parecia que não fazia conta de que estava ali.

Pude ver as cores, as nuances, detalhe por detalhe, até que ele resolveu voltar ao voo solitário.

Olhei as plantas, os insetos, borboletas, joaninhas, pedras, teias de aranhas, água descendo por uma pedra, fazendo barulho hipnotizador.

Além de ver, pude sentir o cheiro, tocar, ter experiências que nunca tive antes.

Entretanto, o melhor de tudo isso, foi que eu consegui não me ouvir.

Não ouvi a minha reclamação pelas coisas que não deram certo, nem a minha voz ávida a resolver problemas, nem o som da minha respiração ofegante por ter percorrido de um lugar a outro, tentando colocar as coisas em ordem.

Não ouvi nada de mim, mas ouvi tudo da minha alma, que há muito tempo clamava por falar, mesmo que a voz que ela emitia fosse puro silêncio.

A voz silenciosa da minha alma me contou tudo que eu precisava saber para que minha vida fosse um pouco melhor, mostrando que em determinados momentos, o melhor que temos a fazer é nos calar e ouvir.

Minha caminhada durou 50 minutos e consegui percorrer 4 longos metros.

Passado esse tempo, eis que volta o líder, mais uma vez gritando.

Parou perto de mim, com o rosto pulsando e transpirando por todos os lados e gritou:

– Você ficou aqui? Não aproveitou nada, não aprendeu nada.

Eu pensei em dizer tudo que tinha visto, ouvido, não ouvido e, sobretudo, aprendido.

Sorri

Calei-me.

Sorri novamente.

Ele não entenderia mesmo minhas palavras depois do silencio revelador da minha alma.

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