Diferenças entre Deus e deuses

samaritanaA palavra, elemento da linguagem humana, sempre foi um dado que diferenciou as relações da humanidade com ela mesma e com o criador. O Homem é um ser que fala, que transmite em palavras o que se passa no seu interior. Se está calado, se mantém sob uma aura de obscuridade, de mistério. É certo que falando, pode dissimular e não dizer toda a verdade, entretanto, ao falar, se revela semelhante ao criador, que é um Deus que fala, um Deus da palavra.

Através da palavra, a criação se fez realidade. O que antes era conceitual, se estabelece de fato a partir da palavra – Haja… e houve – Nada do que foi feito, se fez de forma independente da palavra. Até mesmo na criação do homem, resultado de uma proximidade maior do criador com a criatura, onde o criador molda, indicando que tocou a criatura com as mãos, existe uma pré-criação onde o criador usa a palavra para dizer “façamos o homem à nossa imagem como nossa semelhança.”[1] Ao dizer antes de fazer, Deus se revela como um Deus que dialoga a criação, para que logo depois possa dialogar com ela.

Essa característica no Deus judaico-cristão é uma das que o diferencia das outras divindades. As outras não dialogam, não falam e quando o fazem, a intenção não é a de manter um contato linguístico revelador, mas a intenção principal é a de testar os homens, abençoando-os, se passarem no teste, ou matando-os, se falharem.

Geshé trabalha bem esta questão do Deus que fala:

Visto que um Deus que fala é um Deus que entendemos. Estamos aqui longe do Zeus de Homero do qual é preciso decifrar a impenetrável carranca. Nosso Deus não se apresenta como uma Esfinge na encruzilhada de Tebas, intimando Édipo, num desafia de vida ou morte, a resolver uma charada.[2]

Este Deus que fala, elabora diálogos porque quer transparecer-se ao homem. Como Deus, poderia se eximir de revelar-se, de contar seus planos, mas prefere manter um relacionamento onde sua palavra não é palavra de mistérios. Quando tenciona fazer de Abrão uma grande nação, poderia ter feito sem revelar o que seria feito, todavia, não deixa de ser Deus, mas se questiona: “ocultarei a Abraão o que vou fazer, já que Abraão se tornará uma nação grande e poderosa e por ele serão benditas todas as nações da terra?”[3] A resposta de Deus à sua auto-pergunta se dá no fato de que Deus não se oculta, nem quando vai fazer o bem, nem quando vai agir de forma mais dura com o ser humano.

Mesmo quando Deus se revela por meio de figuras ou alegorias, sua intenção não é a de se ocultar. Revelado plenamente no filho, o Deus Pai e seu Reino são demonstrados por meio de parábolas, que invariavelmente se demonstra a partir do conhecimento dos ouvintes destas parábolas. Esta forma de se revelar demonstra que Deus tem a intenção de ser mais que um conceito etéreo, mas deseja ser uma realidade vivida na vida do homem que criou.

O deus pagão não é um deus dialogal, mas é um deus observador, que está sempre na espreita, aguardando o próximo erro. De fato, este deus pagão, por vezes é introduzido nas comunidades de fé cristã, no lugar do Deus que dialoga. No lugar de conversar, esse deus mudo, somente observa, perscrutando todos os passos para poder encontrar a falha e exercer julgamento e juízo. Nesse sentido, o deus pagão não aceita interferência no destino.

O Deus judaico-cristão, entretanto, é um Deus que não se manifesta a não ser pelo diálogo. Ele fala com a humanidade o tempo todo, seja diretamente, seja nas coisas reveladas, seja no filho, ou ainda pela ação do Espírito Santo. Sendo esse Deus de diálogos, se permite modificar pensamentos, aceitar propostas novas, mudar a rota dos acontecimentos. É capaz de ouvir Moisés, na sua definição de como deve ser um Deus misericordioso e mudar drasticamente seus planos:

Iahweh disse a Moisés: “vai, desce, porque o teu povo, que fizeste subir da terra do Egito, perverteu-se. Depressa se desviaram do caminho que eu lhes havia ordenado. Fizeram para si um bezerro de metal fundido, o adoraram, lhe ofereceram sacrifícios e disseram: Este é o teu Deus, ó Israel, que te fez subir do país do Egito.” Iahweh disse a Moisés: “tenho visto a este povo; é um povo de cerviz dura. Agora, pois, deixa-me para que se acenda contra eles a minha ira e eu os consuma; e farei de ti uma grande nação”. Moisés porém, suplicou a Iahweh, seu Deus e disse: “Por que, ó Iahweh, se acende a tua ira contra o teu povo, que vizeste sair do egito com grande poder e mão forte?(…) Abranda o furor da tua ira e reunicia ao castigo que pretendias impor ao teu povo.(…) Iahweh, então, desistiu do castigo com o qual havia ameaçando o povo. [4]

Fosse esse diálogo com Zeus e Moisés seria morto por seu atrevimento. Por ser mudo, o deus pagão não aceitaria a ingerência de Moisés, e não mudaria seu pensamento a respeito de sua criatura.

Outra diferenciação de Deus aos deuses, é que seus adoradores não estão em uma posição de súditos, esperando que os mortais se aproximem como meros insetos que podem ser pisados. Nesse sentido, a relação de Deus para com a humanidade é uma relação de sujeito a sujeito. Desta forma, a criação toda não vive em anonimato, vivendo ao acaso, mas é sustentada por aquele que a criou.

Sendo este Deus um Deus pessoal, ele compreende que o homem pode ser o sujeito da sua história, e, quando necessário, ser o elemento que expande e modifica a sua própria história. Súditos de deuses mudos, não possuem a mesma oportunidade e são obrigados a viver por toda sua vida, como pessoas que não sabem de onde vem nem para onde vão, não podendo sequer modificar o intervalo entre a origem e o destino de suas vidas.

Desta forma, a criação não pode aceitar uma pseudo revelação de um deus tão pequeno que não consegue se relacionar com a criatura, sem que para isso tenha que deixar de ser Deus. Deus não somente cria e dialoga com a criatura, como também insere na criatura a capacidade de ser como Deus, criador de outros seres humanos. Isto denota que Deus esteve tão intimamente ligado à criatura, mesmo sendo Deus, que transmitiu o poder criador que ele mesmo tinha .

A relação existente entre a humanidade e Deus, também o diferencia de outras divindades. Deus quer o diálogo, a interação, mas não aprisiona o ser criado em labirintos infindáveis de discussões teóricas. Tudo é prático, até mesmo as escolhas. O ser humano criado pode escolher até mesmo não escolher Deus, dar as costas e se distanciar dele. O que não mudará é a perspectiva de Deus para com esse ser, e através da graça, buscará uma reformulação do diálogo, abrindo espaço para que o homem que não o quis, possa, se mudar de idéia, interagir novamente com ele.

Finalmente, o Deus Vivo, difere do deus mudo, pois não está preocupado em que seu brilho ofusque o brilho da criação. Na realidade, o brilho Dele na criação, poderá manifestar no homem a glória de Deus, de modo que ao se relacionar bem com o ser humano, seja possível se relacionar bem com Deus.


[1] Genesis 1. 26a Bíblia de Jerusalém.

[2] GESHÉ, Adolphe. Deus. p. 71

[3] Genesis 18.17Bíblía de Jerusalém.

[4] Exodo 32: 7-14. Bíblia de Jerusalém

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