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mar 09

Eclasiastes de Salomão e banda Marmelade

Elementos da revelação e do relacionamento de Deus na cultura humana .[1]

Introdução

O cristianismo, ao longo de sua história, teve que conviver com as realidades múltiplas da cultura de cada lugar por onde ele se aportou. De modo tenso, em grande parte da história, o cristianismo se impôs como a única forma de se chegar ao Sagrado. Nesse sentido, o cristianismo ditou normas, as quais não sendo seguidas, gerava aqueles que não as seguiam algum tipo de desconforto, exclusão e em muitos casos, tortura e morte.

É preciso então, compreender como a cultura de um povo pode ser um fator de aglutinação e não de dispersão da mensagem do evangelho ensinado por Jesus de Nazaré. A aproximação do ser humano do Sagrado exige-lhe que sepulte seu contexto cultural? A cultura é em si mesma profana?

Tentaremos ao longo desse artigo, discutir sobre essas questões sobre a relação da cultura com o Sagrado e o ambiente de fé religiosa, notadamente o cristianismo. Não é nossa pretensão, enxergar nessas poucas linhas a solução para tão grande discussão, mas um início de uma reflexão que enxergue a fé e a cultura como não sendo, necessariamente, auto-excludentes.

  1. Sobre o conhecimento humano de Deus[2]

O conhecimento de Deus pelo ser humano é, antes de tudo, uma ação que está permeada de tentativa e fracasso. Conhecer com a mente finita aquele que é infinito é por si só, uma tarefa que não logrará êxito.

Então, o que se quer dizer quando alguém diz que conhece a Deus, ou quando alguém faz um convite para o conhecimento de Deus? Do ponto de vista cristão, conhecer Deus através dele mesmo não é o melhor caminho. José Maria Castilho, em sua obra “Deus e a nossa felicidade” declara que “para conhecer a Deus, não se pode começar por Deus em si mesmo”[3]. Nesse sentido, dizer que se conhece a Deus por sua própria experiência é, na realidade, dizer que conhece uma imagem que se faz de Deus.

A revelação de Deus para a humanidade, essa sim, faz todo o sentido. Nela, não há chances de equívocos, pois quem se auto-revela também se auto-conhece, não havendo, portanto, oportunidade para uma revelação de segunda classe. Então, para que o Homem conhecesse Deus, Ele mesmo teve que se revelar.

Essa revelação é feita no contexto cultural de um povo. Primordialmente, o povo de Israel. Tentar compreender Deus e suas manifestações no meio deste povo, desvinculando-o do ambiente cultural de Israel, é no mínimo gastar tempo com divagações que não levarão a lugar algum.

Tomando como exemplo as festas em Israel, poderemos perceber a estreita relação entre a cultura do povo e seu relacionamento com Iahweh, o Deus de Israel. Existem três festas mais significativas em Israel: a Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos. Estas festas serviam para mostrar a união do povo e o livramento que Iahweh lhes dera. Na obra “A Palestina nos tempos de Jesus, de Saulnier e Rolland, temos uma declaração sobre as festas.

Três festas exercem, em Israel, um papel importante; são momentos em que o povo faz questão de se reunir para manifestar a solidariedade que une seus membros e para celebrar as grandes intervenções do Senhor, libertador de seu povo: são as três festas de peregrinação, Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos (ou Tendas). “Três vezes por ano, declara o Deuteronômio, todos os vossos varões se apresentarão diante do Senhor vosso Deus no lugar que ele tiver escolhido: na festa dos Ázimos, na festa das Semanas e na festa das Tendas” (Dt 16,16). Essas festas parecem ser, no início, celebrações ligadas ao ritmo da natureza: na primavera, os nômades oferecem à divindade os primogênitos do seu rebanho (páscoa) e os camponeses sedentários, as primícias da colheita da cevada (festa dos ázimos); a festa das semanas situa-se no verão, no fim da colheita do trigo e a das Tendas, no outono, no fim da colheita das frutas. No decurso dos séculos, essas festas foram “historicizadas”, quer dizer, é ligado a cada uma delas um acontecimento histórico.[4]

É importante perceber, que as festas principais foram, como dizem os autores, “historicizadas”. Nesse sentido, compreendê-las com somente uma festa religiosa, retira delas esta característica relacional com a história do povo de Israel. Por outro lado, mesmo sendo festas de caráter religioso, não há como separá-las da história e da cultura desse mesmo povo.  Este é um pequeno exemplo de como não é possível desvincular o conceito teológico sobre o Sagrado, das relações cotidianas de um povo.

Sendo então a revelação de Deus, algo que tenha início no próprio Deus, podemos considerar como sendo esta revelação a mais adequada possível. Dizendo de outra forma, um ser que se conhece por completo, tem o poder de se revelar completamente, pois não tem limites em si mesmo, nem para quem ele se revela. Entretanto, é em para quem ele se revela que residem as limitações. Nesse sentido, Deus ao se revelar em sua plenitude, não o faz a partir de si mesmo, mas a partir de categorias conhecidas pelo ser humano.

Este conhecimento então, não está para além do que é natural, pois se não fosse assim, o homem natural, com sua mente limitada não o compreenderia. É no dia a dia, nas relações com a natureza, nas manifestações de sua própria criação que Deus se revela ao homem. O Salmista enfatiza muito bem isso.

Os céus contam a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos. Um dia entrega a mensagem a outro dia, e a noite a faz conhecer a outra noite. Não há termos, não há palavras, nenhuma voz que dele se ouça; e por toda a terra sua linha aparece, e até aos confins do mundo a sua linguagem. Ali pôs uma tenda para o sol, e ele sai, qual esposo da alcova, como alegre herói, percorrendo o caminho. Ele sai de um extremo dos céus e até o outro extremo vai seu percurso; e nada escapa ao seu calor. [5]

Para um homem primitivo, sem nenhum conceito teológico-sistemático sobre Deus, as respostas sobre a divindade eram dadas a partir daquilo que ele já conhecia. Ele já conhecia os céus e o firmamento. Bastava-lhe despertar para perceber essas manifestações da natureza. Este conhecimento é difundido dia após dia em discursos da natureza – um dia entrega a mensagem a outro dia.

Esse conhecimento não é limitado ao lugar de existência do Salmista, mas é difundido por toda a terra, indo até “os confins do mundo”. Nesta revelação, percebida pelo escritor do salmo, ele transforma os grandes astros em personalidades – Noivo em sua carreira – onde nada escapa de sua manifestação.

Essa percepção de Deus não é uma iniciativa humana. Castilho enfatiza isso, quando declara que “se tentarmos começar (explicar) por Deus mesmo, com o intuído de entendê-lo e explicá-lo, estamos sempre fadados ao fracasso”.[6]

Sendo essa revelação oriunda da própria divindade, esperar que ela seja limitada, é acreditar numa divindade limitada. Considerando a experiência com a divindade judaico-cristã, percebê-lo limitado é um paradoxo. Sendo essa revelação plenificada na encarnação de Deus, compreendemos que é impossível que ela seja minimizada pela cultura de um povo.

Na tentativa de separarmos a plena revelação de Deus da cultura de um povo, corremos o risco de uma tríplice diminuição. Diminuiremos Deus, que não é suficiente para se revelar na cultura de um povo. Diminuiremos a encarnação de Deus – Jesus, que mesmo sendo homem estaria separado das realidades do seu povo. Por fim, diminuiremos a própria cultura do povo, que tem intima relação com sua divindade, seja nos tempos da revelação parcial ou nos tempos da revelação plena.

  1. Sobre a salvação e a cultura  

Por muito tempo se pensou que fé e cultura eram auto-excludentes. Esse pensamento gerou um conceito errado sobre o que é santo e profano. Dessa forma, passou-se a creditar a cultura uma conotação profana e as relações com o Sagrado uma conotação Santa.

Tendo sido a revelação do Deus de Israel estabelecida no ambiente de Israel, essa revelação não esteve nunca isenta da cultura desse povo. Essa revelação, levada à outros povos, estabelece-se da mesma forma.

Aos primeiros cristãos, foi dito que eles testemunhassem do Cristo em Jerusalém, em toda a Judéia, Samaria e aos confins da terra. Nesse testemunho precisaram tanto enfrentar a morte, quanto ensinar o que o Cristo lhes ensinara. Esse ensinamento, em suas próprias terras, teve como pano de fundo a cultura do povo de Israel. Até esse momento não havia nenhuma mudança.

Com o surgimento das perseguições aos cristãos, eles tiveram que avançar em territórios não conhecidos, com culturas diferentes das suas originais. Desta forma, a propagação da mensagem do evangelho e a difusão da fé cristã tiveram que se encontrar com outras manifestações culturais e sociais. De fato, não haveria a possibilidade da fé e da salvação ser plenamente difundidas se fosse de outra forma. Miranda descreve sobre a relação da salvação com a cultura:

A autocomunicação de Deus, embora tematizada em outra cultura, deverá receber nova compreensão e nova expressão, se quiser ser para os membros dessa cultura o que ela de fato é: um evento salvífico. Isto significa que será acolhida, experimentada, expressa, vivida e proclamada com elementos próprio dessa cultura. Só assumindo os sentidos padrões, valores, orientações, sensibilidades, conscientemente, verbalizados ou inconscientemente embutidos nas práticas sociais de um grupo humano, a iniciativa salvífica divina poderá ser captada como Boa-Nova, como salvação, como plenitude para os membros desse grupo.[7]

É preciso então refletir sobre a participação da fé cristã na cultura de um povo. Ao se envolver com uma cultura diferente da original, dos tempos apostólicos, a fé cristã não precisou se negar em sua essência. Ao contrário disso, ela foi acrescentando à cultura e sendo acrescentada pela cultura. Miranda afirma que há uma troca entre a cultura cristã evangelizadora e a cultura que recebe as boas novas. A primeira recebe novas perspectivas, conhecimento e práticas de outras culturas, enquanto a segunda pode se apropriar de tudo que a ação de Deus estabeleceu em Jesus Cristo.[8]

Nesse sentido, ao se misturar com a cultura, a fé cristã não está perdendo essência, mas se fazendo mais concreta para a realidade do povo onde ela é difundida. Desta forma, separar a fé da cultura é transformar a fé em algo de menor intensidade e valor. Todavia, é o que se faz hoje no cristianismo. Criou-se uma dualidade onde fé e cultura são auto-excludentes.

Desta forma o humano e suas realidades são tratadas no campo cultural, e a religiosidade, no campo espiritual, como se pudesse fazer uma divisão deste ser tão completo e complexo – o ser Humano.

A experiência de fé está sempre vinculada a uma experiência do Sagrado. Dessa forma, incorreríamos em um erro grave, se tentássemos conceber uma divindade sujeita as mesmas limitações que aqueles seres humanos que com ela se relaciona.  Nesse sentido, a revelação de Deus, na experiência humana não pode ser limitada de modo que não contemple também um entrelaçamento com a cultura do ser que se relaciona com este mesmo Deus que se revela.

O criador criou seres com a capacidade de criar. Nesta co-criação, este ser não somente cria outro ser, mas cria significações para seu cotidiano. Desta forma, sendo a cultura este elemento que perpassa por essa criatividade do ser criado, não há porque desvinculá-la da revelação do ser criador.

A plena revelação de Deus se fez realidade em meio a cultura de seu povo. Entretanto, não é correto afirmar que em todos os elementos culturais há a manifestação do sagrado. Nas culturas ocidentais modernas, temos uma forte tendência individualista, onde o ser prefere ser para si mesmo e não para o outro. Por este prisma cultural, compreende-se que não é possível observar uma plena manifestação de Deus, que sempre quis se relacionar com o ser humano, não sendo, tal como na cultura ocidental, individualista. Sobre esse aspecto destaca Miranda:

[…]a cultura, como vimos, envolve padrões interpretativos da realidade de cunho noético ou afetivo, em geral, inconscientes, mas que fazem as pessoas abordarem por seus prismas a própria realidade. Poderíamos trazer como exemplo, o individualismo cultural reinante na atual sociedade ocidental. Sem dúvida alguma, situa-se em aberta oposição ao espírito evangélico do amor fraterno.[9]

Como podemos ver, há elementos da cultura que não estão necessariamente relacionados com a mensagem revelada. Caberá então uma reflexão, de modo que seja possível à fé se apropriar dos elementos culturais que possibilitem uma melhor propagação das revelações do Sagrado.

  1. Sobre a cultura pop e o texto sagrado de Eclesiastes de Salomão.

A partir deste ponto, tentaremos demonstrar como o ser humano em sua criatividade é capaz de elaborar conceitos de vida, possíveis de serem relacionados com o conceito teológico sobre a fragilidade da vida. Para esta demonstração, abordaremos o texto da música Reflections Of My Life (Reflexões sobre a minha vida) da banda escocesa Marmelade, e faremos um paralelo com o texto de Eclesiastes.

O texto de Eclesiastes parece destoar de um dos grandes livros da religião judaica. Se nos Salmos, há convites de júbilos, regozijos, brados de vitória, em Eclesiastes o convite é feito no sentido de se perceber que tudo na vida é fugaz e tudo é vaidade. Para o autor do livro, no fim de tudo, de todas as suas experimentações, o resultado é a descrição da vida cotidiana em um tom melancólico.

É possível encontrar na música Reflections Of My Life, essas mesmas características. O autor percebe que do nascer do sol até a chegada do luar, seus dias são preenchidos com o seu refletir sobre a vida e sobre os problemas de outras pessoas. Na letra da música, o autor declara:

A mudança do sol para o luar
reflexões sobre a minha vida,
oh, como elas enchem meus olhos
As saudações de pessoas com problemas
reflexões sobre a minha vida,
oh, como elas enchem minha mente.[10]

Salomão, por sua vez, não vê proveito na vida de trabalho do ser humano. A ansiedade causada por este estilo de vida, de fato consome a vida do homem. Ele trabalha durante o dia em dores e a noite sua mente não descansa.

Com efeito o que resta ao homem
de todo trabalho e esforço
com que seu coração se fadigou debaixo do sol?
Sim, seus dias são todos dolorosos,
E sua vida é penosa;
Mesmo de noite ele não pode repousar.
Isso também é vaidade[11]

O dois textos poderiam se fundir, numa proposta que aproxima o conhecido texto sagrado, com uma criação cultural de um lugar-espaço muito distante do texto original

A mudança do sol para o luar
são reflexões sobre a minha vida,
oh, como elas enchem meus olhos.
Com efeito o que resta ao homem
de todo trabalho e esforço
com que seu coração se fadigou debaixo do sol?
As saudações de pessoas com problemas
são reflexões sobre a minha vida,
oh, como elas enchem minha mente.
Sim, seus dias são todos dolorosos,
e sua vida é penosa;
mesmo de noite ele não pode repousar.
Isso também é vaidade.

O autor de “Reflections of my life” segue sua descrição melancólica sobre a vida. Em outra cena, carregada de tensão, ele vislumbra a possibilidade de retorno a um lugar de origem. Ele retorna ao lugar que lhe fez existir como ser humano e o faz depois de experimentar suas dores, tristezas e choros, a ponto de levá-lo a morte.

Todas as minhas tristezas, tristes amanhãs
levam-me de volta para minha casa
todos os meus choros,
sinto que estou sempre morrendo,
levam-me de volta para minha casa.[12]

O autor de Eclesiastes percorre um caminho semelhante. Para ele o fim de todo ser humano é a morte. Na morte, o escritor do texto sagrado reflete sobre a vida do ser humano e do seu retorno, através da morte, para as origens.

Tudo caminha para um mesmo lugar:
tudo vem do pó, e tudo volta ao pó.
Quem sabe se o alento do homem sobe para o alto
e se o alento do animal desce para baixo, para a terra?[13]

Da mesma forma, é possível reconstruir o texto, dando-lhe sentido a respeito do questionamento sobre a vida e a morte.

Todas as minhas tristezas, tristes amanhãs
levam-me de volta para minha casa.
Tudo caminha para um mesmo lugar:
tudo vem do pó, e tudo volta ao pó.
Todos os meus choros,
sinto que estou sempre morrendo
levam-me de volta para minha casa.
Quem sabe se o alento do homem sobe para o alto
e se o alento do animal desce para baixo, para a terra?

No terceiro bloco da música, o autor de “Reflections of my lyfe” percebe que precisa mudar. Usa a expressão “Arranging” que no sentido da música pode ser harmonizar, mas no sentido da vida pode significar conciliar ou organizar. Ele percebe que a vida, da forma como ele vive, o conduzirá à morte em vida. Ele precisa de se conciliar, de se organizar para poder viver no mundo que julga ser um mundo mal, mas que mesmo assim, vale a pena viver nele, pois, de fato, ele não quer a morte.

Eu estou mudando, arranjando, Eu estou mudando
eu estou mudando, ah, tudo a minha volta.
O mundo é um lugar mau, um lugar mau
um terrível lugar para se viver,
oh, mas eu não quero morrer.[14]

O escritor do texto sagrado também compreende essa necessidade de mudar para viver. Percebe que na vida, vivida em opressão não há de fato vida. Melhor seria então a morte. Melhor ainda o não ter nascido. É uma declaração da dor de uma vida sob o peso dos opressores.

Observo ainda as opressões todas
que se cometem debaixo do sol:
Aí estão as lágrimas do oprimido,
e não há quem os console.
Então eu felicito os mortos que já morreram,
mais que os vivos que ainda vivem.
E mais feliz que ambos é aquele que ainda não nasceu,
que não vê a maldade que se comete debaixo do sol.[15]

Finalizando a redação do texto, poderíamos compreender a fala dos dois homens inspirados por Deus:

Eu estou mudando, arranjando, eu estou mudando,
eu estou mudando, ah, tudo a minha volta.
Observo ainda as opressões todas
que se cometem debaixo do sol:
aí estão as lágrimas do oprimido,
e não há quem os console.
O mundo é um lugar mau, um lugar mau
um terrível lugar para se viver.
Então eu felicito os mortos que já morreram,
mais que os vivos que ainda vivem.
E mais feliz que ambos é aquele que ainda não nasceu,
que não vê a maldade que se comete debaixo do sol.
oh, mas eu não quero morrer.

  1. A conexão do ser humano com a cultura e com o Sagrado.

No exemplo da musica “Reflections of my life” foi possível evidenciar a possibilidade de uma manifestação cultural alinhar-se com os conceitos teológicos do texto sagrado. Negar a essa criatividade do autor da música, essa conotação divina, é retirar dele a porção divina que lhe foi entregue: o fôlego divino.

Velasco afirma em seu texto “A Experiência Cristã de Deus” que as manifestações culturais, tais como poesia, literatura e arte, nas sociedades mais secularizadas, apontam para uma experiência que abre o horizonte da vida humana, inserindo-a num nível de realidade diferente da cotidiana.[16]

Tendo Deus se revelado na cultura de um povo, negar a essa cultura um lugar de destaque é, em última análise, negar a possibilidade de Deus interagir com o ser que ele criou, o que é, em certo sentido, um paradoxo.

O homem não consegue se relacionar só com a cultura, ou só com a fé. Dizendo de outra forma, o ser que tem uma experiência com o sagrado, não conseguirá escolher entre a sua fé e a sua cultura. Vivenciando a fé e tudo que a envolve, ele o fará a partir da cultura onde está inserido.

O Homem não acorda um dia e decide ou viver a fé, ou viver a cultura, como se as duas fossem elementos que estivessem aguardando sua decisão. Miranda enfatiza essa dimensão da realidade humana:

Como tanto a cultura quanto a fé não são realidades estáticas, fixadas de uma vez por todas, mas sofrem continuamente mutações de origem endógena ou exógena, a inculturação da fé constitui um processo continuo, do qual nunca se pode dizer que chegou ao fim. De fato a fé é primordialmente vida: atitudes, modos de pensar, de viver, de celebrar, de se relacionar dos próprios cristãos. O mesmo podemos afirmar das culturas: um modo de existir inserido numa cosmovisão, que o fundamenta, dá sentido, e é vivido por determinado grupo humano. [17]

O que se pode perceber, entretanto, é uma dualidade onde se tenta separar fé da cultura. A religiosidade humana não consegue enxergar a nocividade desta tentativa. Desta forma, produzem um relacionamento Criador-criatura destituído de seu verdadeiro valor e amputado de uma revelação do Sagrado que de fato valha a pena. Essa dualidade concebida pelo homem é vista por Miranda como algo que “dificulta sobremaneira avaliar corretamente sua mútua interação, trazendo sérios prejuízos, seja à fé, seja à cultura.”[18]

Esta percepção de Fé como algo positivo que direciona o ser humano para o Sagrado e da cultura como algo negativo e que o afasta do sagrado é manifesto nos ambientes de fé, sobretudo da fé cristã, como uma divisão entre as coisas do mundo e as coisas que não são do mundo.

Este pensamento dualista de sacro e profano, gerado provavelmente a partir de traduções da palavra κόσμος – Kosmos no texto de 1João 5.19.[19] – οἴδαμεν ὅτι ἐκ τοῦ Θεοῦ ἐσμεν, καὶ ὁ κόσμος ὅλος, ἐν τῷ πονηρῷ κεῖται. (Nós sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro está sob o poder do maligno), associou a palavra κόσμος – mundo, e o fato dele estar sob o poder do maligno, fazendo com que grande parte dos cristãos compreenda que a expressão mundo é tudo aquilo que se opõe a relação com o Sagrado.

Todavia, ao relacionar sua fé a cultura, o homem não se desconecta de Deus para se conectar ao “mundo”. De fato, esse mesmo Deus a quem o Homem se conecta por fé, está presente no κόσμος – mundo, e tanto se revela a ele, mundo, no sentido das pessoas e suas realidades, quanto se revela nele, mundo, no sentido de lugar.

  1. Considerações finais.

Como foi possível verificar ao longo do texto, sendo Deus aquele que decide se revelar ao Homem, ele o faz por meio de suas múltiplas possibilidades. Desta forma, não se restringe em função de estar em uma cultura diferente da original do texto sagrado.

O ser humano é co-criador com Deus, desta forma está habilitado para a produção de elementos culturais que dêem significado à fé, independentemente do tempo e lugar. Nessa co-criação ele não só solidifica sua fé, como também transforma sua cultura.

Uma das formas que o homem encontrou para significar sua existência é a fé. Mesmo que a outra seja a cultura, isso não significa dizer que cultura e fé não possam caminhar juntas. Ele se resignifica tanto na fé quanto na cultura.

 O sagrado não se aprisiona nem se deixa aprisionar. Suas manifestações são plurais e abrangentes. A tentativa de separar fé da cultura, gera um Deus que não pode viver no mundo que ele próprio criou. Tendo em vista que Ele precisou se esvaziar para dar espaço à criação, não é possível compreender que abra espaço para a criatura, mas fecha-se para os elementos culturais da criatura criada.

É preciso então refletir nas categorias de manifestação da fé, e percebê-la. Se estiverem desassociadas da cultura, será preciso envidar esforços no sentido de mostrar a possibilidade real das duas andarem juntas e se completarem.

Referências

Livros 

SAULNIER, Cristine. ROLLAND, Bernard, A Palestina nos tempos de Jesus. PAULUS. São Paulo, Brasil, 1983.

CASTILHO, José Maria, Deus e a nossa felicidade. EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 2006.

VELASCO, Juan Martins. A experiência cristã de Deus. PAULINAS, São Paulo, Brasil, 2001.

MIRANDA, Mario de França. Inculturação da fé: uma abordagem teológica, EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 2001.

Sites                                                                                           

Letra da música “Reflections of my lyfe” da Banda Marmelade. Disponível em: <http://www.songlyrics.com/the-marmalade/reflections-of-my-life-lyrics> acesso em 26 de fevereiro de 2016. Tradução do pesquisador.

Novo Testamento Interlinear. Disponível em:< http://bibliaportugues.com/interlinear/1_john/5-19.htm> Acesso em 28 de fevereiro de 2016. Tradução do pesquisador, a partir da tradução do grego para o Inglês.  

 Bíblia

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

[1] BRITES, Ronildo. Pós Graduando em Ciências da Religião com ênfase em Ensino Religioso – Universidade Unigranrio.

[2] O termo Deus ao longo do texto fará referência ao sagrado conhecido no meio judaico-cristão.

[3] CASTILHO, José Maria, Deus e a nossa felicidade, p. 23

[4] SAULNIER, Cristine. ROLLAND, Bernard. – A Palestina nos tempos de Jesus. p. 35

[5] Salmos 19. 1-7. Bíblia de Jerusalém.

[6] CASTILHO, op. cit, p. 24

[7] MIRANDA, Mario de França. Inculturação da fé: uma abordagem teológica, p 56

[8] Idem

[9] MIRANDA, Mario de França. Op. Cit, p 57

[10] Letra da música “Reflections of my lyfe” da Banda Marmelade. Disponível em: <http://www.songlyrics.com/the-marmalade/reflections-of-my-life-lyrics> acesso em 26 de fevereiro de 2016. Tradução do pesquisador.

[11] Eclesiástes de Salomão 2.22-23, Bíblia de Jerusalém.

[12] Letra da música “Reflections of my lyfe” da Banda Marmelade. Disponível em: <http://www.songlyrics.com/the-marmalade/reflections-of-my-life-lyrics> acesso em 26 de fevereiro de 2016. Tradução do pesquisador.

[13] Eclesiástes de Salomão 3.20-21, Bíblia de Jerusalém.

[14] Letra da música “Reflections of my lyfe” da Banda Marmelade. Disponível em: <http://www.songlyrics.com/the-marmalade/reflections-of-my-life-lyrics> acesso em 26 de fevereiro de 2016. Tradução do pesquisador.

[15] Eclesiástes de Salomão 4.1-3, Bíblia de Jerusalém.

[16] VELASCO, Juan Martins. A experiência cristã de Deus. p.23

[17] MIRANDA, Mario de França. Op. Cit, p 57

[18] Idem, p. 59

[19] Novo Testamento Interlinear. Disponível em:< http://bibliaportugues.com/interlinear/1_john/5-19.htm> Acesso em 28 de fevereiro de 2016. Tradução do pesquisador, a partir da tradução do grego para o Inglês.  

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