O incio e o fim. Quando o racional aprende com o irracional.

“Disse eu no meu coração, quanto a condição dos filhos dos homens, que Deus os provaria, para que assim pudessem ver que são em si mesmos como os animais. Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó.” Eclesiastes 3.18-20.

Nunca vi nenhum pregador, exceto o prório escritor do livro de Eclesiástes, pregar em cima desse texto. A dimensão que damos ao ser humano é sempre diferente da que damos para os animais. Hoje passei por duas experiências, uma curiosa outra dolorosa, que me fizeram pensar sobre essa relação ser humano racional versus animais irracionais.

Indo para o trabalho, vi que um cão tentava atravessar uma rua muito movimentada. Tentou várias vezes, quase experimentando a morte. Eu, que aguardava para atravessar a mesma rua, imaginava que em pouco tempo aquela cena terminaria na morte do animal. Em um dado momento, surge um outro cão, que emite alguns sons, late e empurra o seu parceiro de existência para uma outra direção. Bastava isso para que eu aprendesse alguma coisa, mas o cão foi além. Direcionando o parceiro, o cão precavido que não se arriscava atravessar a rua, sobe pela passarela existente ali e atravessa em segurança. Fiquei pensando quantas vezes repeti o ato irracional de atravessar entre os carros correndo o risco de finalizar minha vida repentinamente.

As vezes achamos que sabemos mais que os animais, mas cenas como essa nos fazem parar e pensar em quem na realidade é racional, ou usa da racionalidade.

No inicio da noite, passei outra experiência, novamente com um animal. Dessa vez, não era um desconhecido, perdido na rua, mas uma cadela que eu havia pego para criar desde o primeiro mês de vida. Agora, ja no fim da sua existência, doente, sofrendo com os incômodos que o peso da idade traz e sem que eu pudesse fazer muita coisa.

A decisão mais acertada, neste caso foi abreviar o sofrimento do animal, entregando-o aos cuidados de um profissional.

Acompanhei o carro do veterinário até que ele sumisse dos meus olhos, que já estavam completamente tomados pelas lágrimas. As lembranças vieram todas num flash estonteante. Sons, imagens, brincadeiras, sorrisos dos filhos, broncas, passeios, sustos, cores, cheiros, filhotes, preocupações, alegrias…

Era um ser que nos permitiu viver sua vida, sem exigir nada em troca. Estava por perto, mesmo que em alguns momentos insistissemos para que ficasse longe. Nunca reclamava da nossa forma de viver, pensar, agir. Não tinha luxos, não exigia conforto, não tinha vaidades.

Aprendi que quando se ama de verdade, pouco se exige em troca, e por causa disso, muito se tem.

O primeiro animal experimentou o re-inicio da vida. Nasceu de novo por causa de seu amigo.

O segundo, viveu até onde foi possível e nos deixa aquele nó na garganta, daqueles que surgem quando perdemos alguém que nos é muito amado.

A vida tem seu início… A vida tem sempre seu fim…

Saber como viver entre esses dois períodos é o grande desafio que a vida nos apresenta, dia após dia, porque assim como acontece com os filhos dos homens, assim acontece com os animais. Um dia voltaremos para o mesmo lugar: o pó da terra.

Descanse em paz Fofinha, você que já nos deu tantas alegrias.

Vivamos a vida que é sofrida, mas que vale a pena ser vivida.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


8 + = dez