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set 28

O samaritano misericordioso e os religiosos conhecedores da lei.

bomsamaritanoTenho pensado um pouco sobre o que chamamos de “a parábola do bom samaritano”. Refiro-me sobre “o que chamamos”, pois de fato, no texto não há nenhum apelo para a apresentação de um ser que seja bom. É mais correto pensar que o título é devido à traduções e tradições do que ao texto em sua versão original – ou pelo menos da cópia, da cópia, da cópia…. da versão original.

Considerando que Jesus evita o título de bom, é provável que a expressão bom samaritano não corresponda à teologia Lucana. Não seria muito acertado pensar que Lucas descreva o samaritano como bom em um momento e em outro descreve Jesus evitando ser chamado de bom pelo jovem rico.

Sendo assim, podemos considerar como mais próximo da realidade e da teologia de Lucas, a expressão “o samaritano misericordioso”. Podemos inferir isso a partir da declaração do perito da lei –  “aquele que teve misericórdia dele” – , quando inquerido por Jesus de Nazaré sobre quem ele achava que era o mais próximo do homem que sofreu na mão dos salteadores.

Mesmo sendo o título inadequado a partir da teologia lucana, podemos pensar nas ações do samaritano, sem nos prendermos aos detalhes da tradição e das traduções do texto sagrado. Não é quem o samaritano é, mas o que o samaritano fez que configura de fato o mais importante na parábola.

Além disso, do que foi feito pelo samaritano, há outro ponto importante na parábola. Trata-se do que não foi feito por aqueles que, sendo religiosos, e, possivelmente, da mesma religião que o homem atacado pelos salteadores.

Outro ponto importante, por vezes pouco observado é a condição em que a vítima foi deixada. Os algozes o deixaram nu. No contexto religioso atual, nada significa, mas no contexto religioso do tempo da parábola, significa que aquela vítima havia perdido sua identidade de grupo. Não se poderia dizer se era de alguma classe de religiosa. Entretanto, a contradição de um samaritano cuidando de alguém que não era possível identificar, nos remete a uma probabilidade de ser a vítima um judeu. Nesse sentido, a ação dos religiosos é ainda pior, pois se não podiam identificar a classe religiosa da vítima podiam sim reconhecê-lo como um irmão judeu. Não podendo reconhecer se o moribundo era da sua classe, não justificaria deixa-lo da forma que o encontraram.

Não é difícil perceber a responsabilidade assumida e logo depois desprezada pelas duas classes de homens que antecederam ao samaritano misericordioso. Nem o sacerdote, nem o levita passaram por um lugar onde a visão do moribundo fosse impossível. O texto diz claramente que eles seguiram seus caminhos após terem feito contato visual como o homem abatido.

Nisto reside o que houve de pior na ação dos dois religiosos. Viram a necessidade, e julgaram que não era problema deles, deixando o necessitado na mesma situação anterior. Não tivessem visto o homem e suas responsabilidades não seriam observadas pelo redator do texto.

            O samaritano toma atitudes para as quais há um destaque no texto lucano. Primeiro, foi tocado internamente – “moveu-se de íntima compaixão” – vendo-o, não ficou só na observação, mas deixou-se ser afetado pela dor daquela vítima. Em seguida, gastou de seus apetrechos de viagem – azeite e vinho – para amenizar a dor de quem sequer conhecia. Logo depois disso, privou-se de conforto para colocar o objeto de sua compaixão em sua cavalgadura.

            Tivesse ele tomado somente estas atitudes e já seria suficiente para diferenciá-lo dos religiosos. Mas ele foi além. Levou-o para uma estalagem, a mesma que ele mesmo passou a noite, não criando dessa forma uma casta diferente. No dia seguinte pagou as despesas e se comprometeu a restituir o que fosse gasto a mais, quando retornasse.

            Enquanto o certo doutor queria somente testar Jesus, fingindo não saber quem era o seu próximo, o mestre deu uma lição de que o mais importante não era saber a lei, mas identificar o próximo e suas necessidades.

            Quem está de fato preocupado com as necessidades do próximo, não se prende aos rudimentos da lei, antes age, suprindo as necessidades diárias do próximo se comprometendo em investir um pouco mais, caso haja necessidade.

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