Os anjos que caíram do céu – O livro de Enoque e o demoníaco no mundo judaico-cristão

Apresentação

Nas últimas décadas, principalmente a partir dos anos 90, a pesquisa bíblica passou por mudanças de direção muito importantes. Uma delas se refere ao fato de que os textos chamados de apócrifos, sejam do AT, sejam do NT, deveriam definitivamente “sair do armário”. Se antes o seu estudo era entendido como tarefa de pesquisadores esotéricos ou ultraespecializados, agora eles são parte da formação de todos aqueles que querem estudar a Bíblia, e, em especial, o cristianismo primitivo. Os motivos desta mudança devem ser encontrados na reflexão crítica sobre o cânon bíblico e com as novas perspectivas historiográficas que foram inseridas nos estudos exegéticos. Se antes se buscava no texto bíblico apenas doutrinas e fatos históricos, agora há uma salutar abertura para o universo cultural e religioso dos primeiros cristãos. E como eles eram, em sua maioria, judeus ou gentios afeitos à cultura judaica do seu tempo, o mergulho na literatura religiosa judaica do seu tempo é imperativo. Antes, as origens das ideias e expressões neotestamentárias eram encontradas quase que exclusivamente no Antigo Testamento, hoje este pressuposto é considerada anacrônica. O Antigo Testamento só pode ser origem das ideias religiosas do cristianismo primitivo se estudado por meio do seu grande filtro mediador cultural: a chamada literatura do Segundo Templo. Trata-se de uma grande biblioteca composta pelos escritos pseudepigráficos e pelos Manuscritos do Mar Morto. Neles encontramos uma infinidade de gêneros: viagens ao além-mundo, relatos de visões, mitos das origens, textos litúrgicos, interpretações da lei, relatos históricos, etc. Dentre estes textos destacamos um conjunto que é da maior importância para o estudioso do Cristianismo Primitivo: os escritos de Enoque. Trata-se de cinco apocalipses compostos entre o século III ou II a.C. e I d.C. atribuídos a Enoque, o visionário e sábio por excelência. Nos seus relatos encontramos um saber enciclopédico: das origens ao fim da história, da estrutura do cosmo ao sentido da história de Israel. Tudo está lá. E como o cristianismo não nasceu num vácuo cultural, ele também bebeu desta fonte, em parte mediada pela cultura popular e pela oralidade, é verdade. Neste novo momento dos estudos bíblicos podemos dizer sem medo: somos todos Enóquicos!

É no contexto desta vertente contemporânea dos estudos bíblicos que se origina o trabalho que tenho a honra de apresentar. Com erudição, perspicácia exegética e histórica Kenner Terra nos conduz por um universo das narrativas míticas das origens, de um tempo que os seres angélicos e os humanos se relacionavam, sem garantia de bons resultados para ambos. É nestas narrativas sobre o tempo da origem que esta cultura expressa suas ficções fundadoras, suas categorias antropológicas e suas concepções psicológicas. Neste solo fértil da cultura judaica Kenner vai explorar o surgimento das ideias sobre o mal e o demoníaco; tema de tanta importância para compreendermos as sociedades do passado. Mas só do passado? Não exerce o mal ainda horror e fascínio sobre todos nós? Na verdade estes textos antigos têm o poder de nos conduzir por reflexões complexas e da maior atualidade. Afinal, quem se antecipou a relacionar o demoníaco com temas ecológicos e sociais se não Enoque, o visionário do tempo primordial? Estes textos também nos permitem um olhar mais rico sobre as crenças em espíritos imundos e demônios nos evangelhos e na tradição de Jesus. Em tempos de demônios domesticados nos programas de TV, esta redescoberta da dimensão cultural do demoníaco nos evangelhos pode ser fonte de surpresas fascinantes. Descobriremos as transições pelas quais o mito passou até as formas assumidas na narrativa sinótica. Perceberemos também como os personagens mudam, adaptam-se e ficam cada vez mais adaptados a novos tempos. De guardiões, se transformam em demônios.

Carapicuíba, agosto de 2012.

Prof. Dr. Paulo Augusto de Souza Nogueira

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


+ sete = 11