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abr 29

Sobre as perguntas em tempo de crise e o futuro do Cristianismo

Teologia em tempos de crise

            Se, como afirma Benedito Ferraro, temos mais perguntas que respostas em tempos de crise, pode-se  dizer que estamos vivendo, no contexto do cristianismo atual, o tempo de todas as perguntas, muitas vezes, sem nenhuma resposta a curto prazo.

            A proposta cristã superficial de que aceitar Jesus como caminho verdade e vida, já não garante todas as respostas que o ser humano precisa. Alguns, e arrisco dizer, uma grande e assustadora parcela, acreditam que já detiveram o conhecimento do caminho verdade e vida, entretanto, continuam perdidos em seus próprios caminhos, e o que é pior, no caminho, verdade e vida que acreditam conhecer.

            O significado deste caminho, verdade e vida, não tem conseguido atingir o ser humano, pois aqueles que deveriam dar esse significado, proferem discursos contrários ao significado. Por conta disso, ainda encontramos tanta injustiça social, exclusão, permeando e no meio de um evangelho que por si só tem uma proposta de justiça e inclusão. No contexto do Brasil, essa realidade é cotidiana, explicitada nos meios de comunicação e mesmo assim, a resposta teológica para esse sistema ainda é frágil, quando existe. Na maior parte do tempo, não há sequer proposta teológica para esse tipo de situação.

            No mundo globalizado, criador de centenas de milhares de excluídos, o cristianismo não pose se resumir numa pregação cujo discurso seja do tipo “aceite Jesus para ir para o céu”, quando toda a problemática que atinge esse excluídos acontece aqui na terra. É preciso que os cristãos progridam dessa reposta teológica padrão, tendo em vista que, na perspectiva do Cristo, o Reino de Deus não se estabelece no céu, mas na terra. Viver um evangelho que ignore isso é viver um evangelho em desacordo com o próprio evangelho, onde o próprio Cristo ensina orar, suplicando para que o Reino venha até nós, e não nós sejamos levados ao Reino.

            Se, de fato, quisermos que o discurso teológico cristão, tenha algum efeito transformador, precisamos entender o ser humano, distribuídos em suas várias culturas, carece de apliquemos nossos discursos a partir da diversas culturas existentes e não nos fixarmos na mesmice estabelecida pelos dogmas cristãos, que, ao serem aplicados indiscriminadamente  à vários povos, sem os considerar com povo, se torna um discurso vazio e puramente religioso.

            Mesmo sendo a verdade do cristianismo única, a aplicação dessa verdade dependerá sempre do significado dado a essa verdade. Para considerar o discurso teológico cristão como eficaz, será preciso fazer um esforço de modo a significar a verdade do Evangelho às realidades multiculturais dos países. Será preciso também que o teólogo progrida de um saber único para um saber plural acerca do ser humano. O teólogo que se furtar desse avanço em outros saberes, estará fadado a transmitir uma verdade que só sirva para um contexto pequeno de uma realidade diminuta.

            Que respostas teológicas poderemos trazer para um mundo que direciona seu potencial produtor não para aumentar esses produtos, de modo a satisfazer a necessidade do ser humano, mas simplesmente para, aumentando a produção, auferirem maiores lucros? Que respostas a teologia pode dar, ao falar do Eterno para as pessoas que não tem o mínimo de condições para ter uma vida digna? Já não é mais resposta plausível, aquela que se dá no contexto de uma salvação futura, tendo em vista que os problemas não são do futuro, mas da realidade presente. Nesse sentido, dizer que Jesus supre todas as necessidades humanas e deixar o ser humano carente, é um contrassenso. Anunciar o Cristo, como o pão da vida, e permitir que o ser humano padeça de fome, é fazer um discurso teológico sem fundamento.

            Se há, na teologia cristã, certa predisposição ao combate da idolatria, é preciso perceber que em muitos casos, o modelo de idolatria definido há séculos atrás, não é o mesmo de hoje. Há hoje uma idolatria sem postes-ídolos, estes foram substituídos por deuses conceituais, sendo o mercado capitalista um os maiores. Não há sentido em apresentar um Deus, sem que ele represente, ao mesmo tempo, vida eterna, pão, terra para plantio, local onde morar com dignidade e liberdade.

            Está claro, na narrativa bíblica que o Eterno faz opção pelos pobres e excluídos. No contexto  da América latina, o mesmo Deus que agiu através dos profetas, nos últimos através do filho, já não pode ser visto nos índios, negros, mulheres, crianças, migrantes, favelados, camponeses sem terra. Desta forma, é possível perceber que se faz necessário a busca por um discurso teológico que enfrente a realidade de o cristianismo estar na contramão do que que ensinou o próprio Cristo, quando disse “o Reino de Deus está em vocês”.

            Um discurso teológico que não enxergue as minorias, é um discurso desconectado das características do Cristo, que sempre se colocou no lugar dos vitimados, a ponto inclusive de substituí-los na cruz. Se há opressão político-social, o papel da teologia é ir na via contraria dessa opressão, propondo soluções para a desvalorização do pobre e do excluído da vida social onde ele habita. A opção teológica equilibrada, fará surgir uma opção político-social equilibrada, o que pode ser visto como utopia, mas que em ultima instancia, é chamado de Reino de Deus.

            O discurso teológico cristão deve estar atento na forma de divulgar as verdades do evangelho, de modo que, ao faze-lo não trate a cultura de outros povos como algo menor, o que tornaria a propagação desses verdades um autoritarismo, no lugar da expressão da liberdade. Nesse sentido, o discurso teológico deverá respeitar o horizonte cultural, sem contudo, correr o risco de, para proteger a cultura, cair no erro de um reducionismo.

            Por fim, o discurso teológico cristão, não deve apresentar um cristo que não seja humano, mesmo que ele seja Deus. É na humanidade do Cristo que o homem se identificará e conseguirá dessa forma, encontrar-se consigo mesmo

A espera da aurora

 

            Qual é o futuro do Cristianismo? Esta pergunta está presente no texto e Jean Delumeau.  Muito mais que isso, é uma pergunta que está presente na história do cristianismo moderno. De fato, é um pensamento que se tornou corriquei nos últimos anos de que o cristianismo está fadado a se extinguir.

            Existe um decréscimo generalizado no que se refere às práticas consideradas comuns o cristianismo, existindo uma diferença entre a religião que se vive e a religião proposta pelas instituições religiosas. Na Europa, que foi por muito tempo um dos lugares centrais do cristianismo, os conceitos sobre a bíblia, casamento, família, religião e domingo como dia religioso, já não tem a mesma representatividade. Para Delumeau, está ocorrendo, principalmente na Europa, mas não somente nela, um processo de descristianização que progride velozmente.

            O cristianismo paga uma hoje um extensa conta, pelos erros cometido pela instituição no passado, quando seus dogmas, ao serem contestados eram cobrados com torturas e morte. Mesmo que o cristianismo tenha sido a religião que mais tenha feito sua mea culpa, é tão desconfortante quanto inegável perceber que ainda há quem cobre pelos pecados cometidos em nome de Deus, mesmo que, esta mesma instituição tenha sido a base para difusão de conhecimento e da cultura.

            Nesse sentido, há certa hipocrisia em quem insiste e culpabilizar o cristianismo, no lugar de entender a culpa dos seres humanos e não da instituição. Há um cuidado em até mesmo preservar os grandes prédios e monumentos cristãos, sem contudo existir uma preocupação em preservar o que serviu de base e inspiração para tais construções. Preserva-se o que se vê aos olhos, mas não se preserva a fonte de inspiração para o que se vê aos olhos.

            O mesmo cristianismo, considerado como agonizante por muitos, é o cristianismo que faz aflorar as ações altruístas que, em grande parte do mundo, tem servido para o resgate da dignidade de muitos. Outro resultado do cristianismo foi o de ter transformado radicalmente a sociedade por onde ele se difundiu, estabelecendo obras de caridade, estruturas hospitalares, entre outras ações de cunho humanitário.

            Se há um processo de descristianização da Europa, o mesmo não acontece em outras regiões como na América Latina, Africa e Asia. O decréscimo europeu, então, não significa um declínio do cristianismo em todos os lugares do mundo.

            Considerando que a humanidade está sempre em movimento, o cristianismo precisa adotar uma postura de movimento sempre apontando para o futuro, e se não o fizer, estará fadado a se tornar uma religião incompreendida. Será preciso que o cristianismo inove para adaptar-se a uma realidade sempre em movimento. É preciso se desprender de uma organização imutável e mostrar a encarnação de forma radical, sem desconsiderar o pensamento do homem moderno.

            O século XX foi responsável pela morte de vários cristãos, desde simples fiéis até aqueles que ocupavam posição de destaque na religião cristã, e muitos deles assumiam a postura do Cristo quando disse “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Parece-me que o cristianismo não se conformará a afirmação de que ele morrerá, e ainda mais, crescerá a medida em que seus seguidores forem perseguidos. Mas é preciso que se perceba que a modernidade e a globalização não conviverá bem com o cristianismo tal como o conhecemos. Para se manter e continuar sendo relevante na sua mensagem, o cristianismo precisará buscar um meio para transmitir sua mensagem neste mundo atual.

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