Tributo a quem só precisava viver cada dia

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Algumas vezes eu achei que podia viver sozinho, isolado do mundo. Nesta perspectiva, afastei de mim algumas pessoas, só para não ter que correr o risco de me relacionar com elas.

Essa semana, mais do que em todas as outras vezes, tive que perceber que o isolacionismo não é, de fato, possível. Não dá para viver neste mundo, achando que não seremos influenciados de alguma forma por ele.

Mesmo sem conhecer o cinegrafista Santiago Andrade, o fato de saber que ele foi ferido, já me trouxe para uma realidade inegável: não estamos sós neste mundo. Ouvir no rádio que uma pessoa foi ferida, seja ela quem for, já me causa um sentimento de que algo pode dar errado e de forma irremediável.

A medida em que fui tomando conhecimento dos fatos, por vídeos e fotos, percebi que a situação ia além do que eu imaginava.

Desde junho de 2013, estive observando que os enfrentamentos entre os que protestam, e os que estão ali para supostamente garantir a ordem e a integridade, estavam seguindo por um caminho onde o pior podia acontecer e no próximo minuto.

Até a última quinta feira, os ferimentos e a dor causada a quem estava participando das manifestações não tinham um resultado funesto, até que alguém resolveu, de forma criminosa, acender um artefato explosivo, construído para explodir no ar, mas que encontrou o corpo despreparado de um profissional que estava fazendo o seu papel.

Não se tratava de um policial, que já sai do quartel munido de capacete, colete, escudo, armado para uma guerra, mas de um profissional com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.

Nos indignamos, sobretudo quando as autoridades, que deveriam proteger, em uma demonstração de total despreparo, descarregavam balas de borracha, gás lacrimogênio e gás de pimenta, sem querer saber se o alvo era de fato o inimigo ou alguém que estava tentando seguir seu caminho de volta pra casa. Vimos o sangue, vimos expressões de ardência nos olhos, falta de ar, mas no fim de tudo, torcíamos para que aquilo acabasse logo e que todos voltassem para casa, a fim de cuidar de seus ferimentos, quer sejam no corpo, quer sejam na alma.

E quando pensamos que na próxima manifestação tudo se repetirá, com correrias, gritaria, black bloc-bostas quebrando o que não deve ser quebrado, enfim, tudo o que já estávamos vendo, alguém, resolve ir além, e fere mortalmente alguém que não estava ali nem para ser contra, nem a favor. De certa forma, todas as equipes de reportagem estavam ali, para garantir a informação, e em segundo plano, garantir que, por estarem sendo filmados, excessos não acontecessem de ambos os lados.

Hoje, quem compartilha o sentimento de abominar que a vida humana seja relegada a segundo plano, ficou em choque com a notícia da morte de Santiago, que no cumprimento do dever, perde a vida, porque alguém achou que acender um artefato explosivo sem saber para onde ia, justificava-se pela causa pela qual lutavam: R$ 0,25.

Em horas como essas, ficamos nos perguntando: E se?

E se os manifestantes, não tivessem levado artefato explosivo?

E se os manifestantes, no lugar de se juntar para este tipo de manifestação, manifestasse nas urnas?

E se o Santiago estivesse com um EPI?

E Se…

Mas se dermos vazão a todos essas condicionais, vamos perceber que não há como viver a vida a partir de condicionamentos, pois de fato, a vida deve ser vivida em sua plenitude.

Não conheci o Santiago, não sei como é sua voz, não sei nada sobre ele, mas sei de uma coisa e esta é suficiente para que tudo isso me incomode a ponto de me embargar a voz: ele era um ser humano, lutando para viver e dar uma vida digna à sua família. Nisso, eu me identifico com ele e acredito que muitos se identificam, mesmo sem saber direito quem ele era.

Acredito que o Santiago, era alguém que só precisava viver cada dia de sua vida.

Só nos resta desejar que os amigos e familiares sejam confortados por laços de solidariedade, com o desejo de que Deus cuide de seus corações, e além disso, que a justiça seja feita.

Vá em paz, Santiago, registre as imagens do céu, as melhores que você puder fazer.

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